Já não se vêm roupas
estendidas nas varandas, já são menos as idas ao ecoponto despejar os papeis…Os
primeiros dias de confinamento passaram relativamente depressa para aqueles que
se lembraram de fazer grandes limpezas em casa e arrumação de gavetas. Da minha
janela apreciava aquele frenesim, de “vamos lá destralhar” a casa. A mim não me
apetecia. Tinha uns trabalhos começados de artes e costura, e dediquei-me a
acabá-los.
-Isto não serve para nada!
Pensava eu, mas se a COVID me apanha também não quero deixar isto aqui por
acabar.
Há muito que penso, ter tudo mais ou menos
organizado, para quando tiver que partir para a tal viagem sem regresso, não
deixar muito trabalho para os filhos… Mas nunca consegui.. Tenho sempre coisas
a mais, em casa.
Estamos no segundo período
de emergência decretado pelo Presidente da República, e que vai até 17 de
abril.
Vem aí a Páscoa! Mas qual
Páscoa? As famílias não se podem reunir. É proibido circular para fora do
concelho de residência. As igrejas estão fechadas!
Sou católica, sou crente,
mas não sou de ir à missa todos os domingos. Vou quando me apetece e quando
sinto necessidade de me recolher e meditar. Em homenagem ao sofrimento de
Cristo, gosto de participar nas cerimónias da Sexta Feira Santa.
Vai ter que ser pela
televisão.
Assim foi, e aquela imagem
do Papa Francisco rezando virado para a Praça de S. Pedro vazia vai ficar para
sempre na minha memória.
Não é justo, morre-se demais
em todo o mundo e na Europa, sobretudo na Italia, França e Espanha, os números
de mortes sobem todos os dias e no meio de tantos anónimos, a 14 de abril morre
Maria Santos, vítima do vírus, ironia do destino, uma cientista portuguesa,
imunologista, que tanto estudou no combate contra as doenças infeciosas.
A 16de abril morre Luís
Sepúlveda, escritor, também ele, o homem que nos fazia sonhar através dos seus
livros, partiu, cedo de mais. E talvez porque a vida é um corre corre
desenfreado, assim, num abrir e fechar de olhos morre também o ator Filipe
Duarte, aos quarenta e poucos anos de idade, vitima de ataque cardíaco. Jovem e
talentoso, o seu coração desistiu de bater. Não é justo.
Leiria 19 de abril 2020